Os anos 2000 estão de volta

Por Luiz Fernando Araújo, CEO da Finacap Investimentos


“Nós compramos participações em empresas baseados nas expectativas de desempenho de longo prazo dos negócios e não porque são códigos em uma tela que mudam a todo tempo. Este ponto é crucial: nós não somos investidores de papéis, somos investidores de negócios.” A frase foi extraída da Carta aos Acionistas de 2022 da Berkshire Hathaway, de Warren Buffett (foto).



A ideia de investir em ações como partes de um negócio real já foi tão repetida que virou clichê na comunidade de investimentos. Este fato, infelizmente, não significa que o mercado deixou de ignorar essa obviedade ululante. Tanto que esse foi um dos principais temas da assembleia, liderada por seus diretores nonagenários Warren Buffett e Charlie Munger. Este último, sempre o mais contundente da dupla, escancarou o posicionamento crítico com o comentário:


“A forte queda das ações da corretora Robinhood é um sinal de justiça divina”.

Para demonstrar o erro cognitivo das massas, que negociam ações diariamente em busca do retorno imediato, Buffett explicou como adquiriu, em 15 dias, cerca de 14% de uma das maiores empresas de energia do mundo, a Occidental Petroleum, sem sequer afetar as cotações da empresa. Como relatou ao longo das seis horas de conversa com seus acionistas em Omaha, em uma situação normal de mercado, é inconcebível que alguém consiga comprar um percentual tão relevante de qualquer ativo real importante para a economia sem afetar seus preços. Imagine adquirir 14% das terras dos EUA, ou dos imóveis, ou do rebanho bovino etc.

Já vimos esse filme antes. No final dos anos 2000, auge da bolha das pontocom, Warren Buffett era visto como um investidor antiquado e sua estratégia de valor havia morrido – assim a célebre frase “value is dead”, que há pouco tempo estava voltando à cena, inclusive sendo adotada por vários influenciadores tupiniquins, entusiasmados com a disrupção da economia pelas bigtechs, fintechs e correlatos. A principal estratégia de Warren Buffett, assim como da maioria dos investidores de valor (value investors), é de arbitragem temporal. Em outras palavras: ele acumula ativos explorando o diferencial de horizonte de tempo entre os participantes do mercado, comprando daqueles que estão focados no movimento de curto prazo da bolsa.

A maior parte dos gestores, mesmos os que são alinhados com a filosofia de valor, sofrem muita pressão por resultados de curto prazo, seja de seus investidores (cotistas dos fundos), seja dos acionistas das instituições financeiras cujos recursos administram. Esse contexto provoca o viés da conformidade, ou como preferimos chamar, “efeito maria-vai-com-as-outras”. Gestores profissionais dificilmente podem arcar com o custo de carregar posições perdedoras durante muitos anos sem perder recursos.

Na Berkshire, Buffett tem uma fonte perene de recursos por meio de suas seguradoras e resseguradoras, que independe do humor dos mercados. Pelo contrário, momentos de stress na economia são os preferidos por Buffett para emitir apólices com prêmios favoráveis. Assim, o fato de estar há dez anos com retorno abaixo do S&P 500, praticamente, não tem qualquer efeito sobre os alocadores de recursos da empresa. Na verdade, lhes proporciona grande vantagem operacional, pois podem ser agressivos em momentos de grande incerteza econômica.

Em meio às fortes quedas vistas nos últimos meses, em algumas das principais empresas símbolos da onda tech, a cobertura da assembleia anual da Berkshire faz parecer voltar aos anos dois mil. Ainda bem que o Oráculo de Omaha segue falando. Resta apenas ser ouvido. * Luiz Fernando Araújo, CEO da Finacap Investimentos


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