Data: 08/03/2010

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Olhando pelo retrovisor

Por Aristides Cavalcanti

 

Voltemos um pouco no tempo. Em 2008, quando o mundo atravessava uma forte crise econômica, iniciamos o nosso artigo de fim ano com a seguinte afirmativa: “O que se pode falar diante da crise que estamos passando? Que crises são passageiras e que os preços dos ativos estão completamente fora de parâmetros de valor? Sim, temos dito...”.

 

Este ano, assim como em 2008, o pensamento continua sendo o de cautela e racionalidade. De nada adianta agir de forma irracional, levado pelos noticiários amplamente desfavoráveis e catastróficos. Sabemos que para muitos é difícil conseguir essa frieza, somente obtida com a maturidade, mas tentemos olhar pelo retrovisor. 

 

Sob a ótica mais aguda da crise financeira global e sem se deixar levar por um otimismo exagerado diante do quadro amplamente favorável pelo qual estamos passando, voltemos a traçar um novo cenário para a economia brasileira e mundial.

¹Projeções de Mercado

 

Sobre o cenário doméstico, como podemos visualizar na tabela acima, o que se tem é o “melhor dos mundos”: forte retomada da economia para 2010; perspectiva de crescimento superior a 5%; desemprego em queda; aumento da renda, influenciada pelo reajuste do salário mínimo; estabilidade inflacionária; e grandes avanços nas políticas sociais.

 

A política monetária se mantém firme no controle da inflação, mesmo com todas as pressões contrárias. Os mercados de ativos mostram valorização, refletindo o crescente ingresso de recursos externos, o que vem valorizando nossa moeda e, de certa forma, servindo para derrubar a inflação. Por outro lado, este quadro prejudica, em alguns aspectos, nossa balança comercial, embora a forte demanda chinesa por commodities esteja sustentando as exportações.

 

Apesar de nos encontrarmos no “melhor dos mundos”, é preciso ficar em alerta para alguns temas. Um ponto que merece atenção especial é a questão fiscal. Atualmente, as despesas de custeio estão avançando mais que os investimentos. Essa leniência provocou uma redução do superávit primário para 1% do PIB, quando, em outros tempos, chegou a mais de 4%.

 

Boa parte desse quadro é reflexo das isenções fiscais concedidas no período da crise, medidas que foram acertadas diante da situação vivida na época. Na verdade, a gestão fiscal do governo nos últimos anos é crítica, já que boa parte das despesas foi direcionada para pessoal, pouco sobrando para os investimentos públicos, destacando aqui a infraestrutura. 

 

A forte demanda interna existente, provocada pelos estímulos de crédito, fiscais e de renda, também é um fator que merece atenção. É um quadro que poderá resultar em aumento da taxa básica de juros a partir do segundo semestre do próximo ano.

 

No front externo, a nossa posição é continuar observando os alertas emitidos pelos países ricos de começarem efetivamente a sair da recessão, a reduzir o grau de endividamento, considerado proibitivo, e melhorarem os índices de desemprego (bastante alto atualmente).

 

Como vemos, apesar de alguns entraves, o cenário doméstico atualmente é de céu de brigadeiro. Entretanto, vale salientar que caso os investimentos não evoluam para algo em torno de 22% a 25% do PIB, será praticamente impossível manter um crescimento, nos níveis atuais, de forma sustentada. Isso poderia nos revelar para 2011 o início de gargalos na economia, assim como o aparecimento do fantasma da inflação de demanda. Torçamos para que tudo dê certo.

 

Por hora estejamos felizes com o mercado doméstico e de olhos atentos e bem abertos com o cenário externo. E é com esse “céu de brigadeiro”, em que se encontra o mercado brasileiro atual, que nós da Finacap desejamos a todos um Feliz Natal e um próspero ano novo.